Empreendedores por necessidade

29/02/2016

Pesquisa de 2015 mostra que quatro em cada dez brasileiros já estão envolvidos em abertura de empresas, mas com salto na participação dos que precisam complementar a renda.

O número de brasileiros em idade economicamente ativa que são empreendedores aumentou de 34,4% em 2014 para 39,3% no ano passado, quando chegou a 52 milhões de pessoas. Entretanto, pela primeira vez desde 2009, houve aumento na participação de pessoas que abriram um negócio próprio por necessidade, que foi de 29% para 43,5% nos últimos dois anos, com redução dos que viram uma oportunidade no mercado, de 71% para 56,5%. Os números são do Monitor de Empreendedorismo Global 2015 (GEM, na sigla em inglês), pesquisa patrocinada pelo Sebrae no Brasil.

É a recessão econômica pela qual o País passa que explica o fato de quatro em cada dez brasileiros estarem ligados à criação de uma empresa, pelo próprio histórico do levantamento. A participação de novos empreendimentos motivados por oportunidades tem aumentado quase que ininterruptamente desde 2002, quando era de 42% do total. De 2005 para 2006, houve quase estabilidade, de 52% para 51%, mas foi quando estourou a crise econômica mundial, entre 2008 e 2009, que ocorreu a outra variação drástica da série. Na ocasião, o índice caiu de 67% para 60%, conforme a GEM.

Boa parte dos empreendimentos iniciais são tocados por jovens de 18 a 35 anos (52%), com escolaridade abaixo do segundo grau (44%) ou com o segundo grau completo (49%) e renda de até três salários mínimos (61%). Quesitos que tiveram variação pequena em relação ao ano anterior, mas que mostram o perfil de trabalhadores com mais dificuldade de conquistar espaço no mercado.

A diferença principal do ano passado em relação à série analisada na GEM, e que deve permear as iniciativas de abertura de empresas também em 2016, é mesmo a necessidade de se sustentar diante do aumento do desemprego, diz o consultor do Sebrae em Londrina, Rubens Negrão. "Até 2012, principalmente, o crescimento da classe C, o ganho de poder aquisitivo da população, o maior gasto em educação e o maior acesso à internet fizeram com que o brasileiro buscasse oportunidades de mercado", conta.

A perspectiva da realização de uma Copa do Mundo e de uma Olimpíada no País também motivou os empreendedores, mas a crise tratou de enfraquecer o ímpeto ainda antes dos Jogos do Rio, neste ano. "O desemprego e a inflação aumentaram, o que tira o poder de compra da população e cria um clima negativo, que é o principal responsável pelas pessoas gastarem menos e investirem menos", diz Negrão.

O consultor lembra ainda da alta de juros, que costuma fazer com que o rendimento em fundos de renda fixa seja maior do que o retorno em produção, o que atrasa a abertura de empresas por oportunidade. Outro motivo para a disparada do nascimento de empreendimentos por necessidade. "Quando fica desempregada, a pessoa tem de continuar a colocar o leite dentro de casa e então busca uma porta de entrada para o mercado empreendedor, que é principalmente o MEI", explica, sobre o Microempreendedor Individual.

O programa nacional permite que qualquer autônomo com faturamento de até R$ 60 mil ao ano possa se formalizar, mesmo que tenha até um funcionário. Negrão lembra que quem estava informal teve tempo para se adequar até então. "Quem virou MEI agora é porque são novos empreendedores."

Garantia de renda

O técnico em eletrotécnica Cláudio da Silva Leite, de 37 anos, prepara-se desde o ano passado para abrir a própria empresa, a CSL Instalação e Manutenção Elétrica. Depois de 16 anos trabalhando no setor em uma indústria de Londrina, ele foi demitido em novembro de 2015. "Chegou a crise e estamos passando por um momento difícil, mas, em Londrina, teria dificuldade de conseguir um emprego com salário que se equipare ao meu antigo, então fiz a opção de virar um MEI", conta.

Ainda na fase de montagem do plano de negócios, ele não decidiu se atenderá apenas residências e pequenos comércios, ou chegará até indústrias. Apesar de dizer que pode tocar a empresa em paralelo a um novo emprego, ele cita que também pode optar por trabalhar apenas como autônomo, caso identifique a oportunidade. "Tenho um filho e minha mulher está grávida de outro, então estou aberto a todas as oportunidades. Tudo vai depender da minha renda", diz Leite.

Setor precisa de condições mais favoráveis

O presidente do Sebrae, Guilherme Afif Domingos, considera o empreendedorismo como alternativa para contornar dificuldades da economia e, por isso, diz que é preciso promover ações que reduzam a burocracia, simplifiquem a legislação, facilitem o crédito e incentivem a educação empreendedora. "Quanto mais crédito e menos tempo o empresário perde com entraves burocráticos, mais ele pode se dedicar ao seu negócio, o que gera mais emprego e renda para os brasileiros", diz Afif.

Ele cita que a redução da participação de empreendedores por oportunidade pede nova política para o setor, já que os 56,5% de 2015 representam o mesmo índice de 2007, quando a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa entrou em vigor. "Com a melhoria do ambiente legal no Brasil, presenciamos um boom no empreendedorismo. O aumento de incentivos influenciou o forte crescimento do empreendedorismo por oportunidade, que pode ter voltado a um patamar mais equilibrado quando comparado com o empreendedorismo por necessidade", afirma.

Especialistas ouvidos pela GEM apontam ainda para a necessidade de incentivos à educação e capacitação (48,6%), políticas governamentais (40,5%), apoio financeiro (24,3%), pesquisa e desenvolvimento (23,0%), custo do trabalho, acesso e regulamentação (20,3%) e programas governamentais (16,2%).

Apoio Técnico

Consultor do Sebrae em Londrina, Rubens Negrão lembra que é importante que os empreendedores busquem apoio de entidades para a formatação do negócio em qualquer situação, mas, principalmente, em caso de necessidade. "É preciso conhecer o mercado, os custos, a concorrência e aprender a se diferenciar", cita.

Negrão lembra que é comum a pessoa não ter visão sistêmica da empresa onde trabalhou, mas apenas da função que exerceu. "O papel das instituições é emprestar esse conhecimento a esse público, para que tenham a condição mínima de administrar o negócio. E não se trata apenas do Sebrae, mas de associações comerciais, sindicatos e outras", sugere. (F.G.)

Fonte: Fenacon

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