×
Siga-nos:
Classe Contábil
PUBLICADO 2 anos ATRÁS.

Inflação em uma década faz nota de R$ 100 valer R$ 54,80

“Lembro que no Natal, comprava presente para todo mundo, família e funcionários. Hoje não dá mais para fazer isso”, conta a cabeleireira aposentada Raimunda Fernandes Amorim, 79. “A gente não vê mais as pessoas entrando numa loja para comprar um vestido bonito e sapatos novos para ir a uma festa”, afirma o engenheiro João Batista Peixoto Guimarães, 72. “Material didático está uma fortuna. Antes, eu comprava tudo novo. Agora, comecei a vender e comprar livro didático usado”, relata a dona de casa Priscila Zanco, 54.

Tais relatos são familiares? Eles são o efeito da desvalorização do real ao longo dos anos. Segundo os cálculos do Conselho Federal de Economia (Cofecon), nos últimos dez anos, a inflação abocanhou quase 100% do poder de compra dos brasileiros. Ou seja, uma nota de R$ 100 hoje, em comparação com o poder de compra de 2007, vale R$ 54,80.

“A sensação que eu tenho é que o que eu comprava com R$ 10 há pouco tempo, hoje compro com R$ 100. Sinto isso em tudo, do supermercado até o lazer e o vestuário”, afirma Priscila. Se pegarmos a criação do real, em junho de 1994, há quase 23 anos, Priscila tem seus motivos. Uma nota de R$ 100 hoje tem o poder de compra de R$ 19,11 em 1994. A inflação acumulada nesse período é de mais de 450%.

“Lembro de todos os planos, e antes era pior, subia o preço todo dia. Hoje, é diferente, mas o dinheiro ainda não valorizou. Quando a gente vai ao supermercado, percebe que, aos poucos, vai perdendo poder de compra. Eu já tive cartão de crédito e, hoje, não tenho mais. Meu salário não diminuiu, passou a valer menos”, relata Raimunda.

O economista Carlos Eduardo de Freitas, do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal (Corecon-DF), explica que a perda do poder de compra vem do desequilíbrio fiscal. “É um problema crônico, que existe desde 1994. Quem decide se vai emitir mais moeda é o governo federal, o Banco Central (BC) só cumpre a ordem. Quando o governo emite mais dinheiro, para pagar suas dívidas, quem paga somos nós, o setor privado da economia, as pessoas e as empresas”, diz.
João Batista Peixoto percebe isso no bolso. “Nós que pagamos a conta. Detesto quem gasta mais do que tem, e é isso que o governo faz. O governo não sabe gastar”, afirma. “Com isso, as taxas de serviços ficam mais caras. Não é só o supermercado que sobe, condomínio, taxas bancárias, impostos, tudo isso come nosso dinheiro”, acrescenta.

Freitas explica que isso acontece por falta de equilíbrio nas contas. “Quando o setor público se desequilibra nas contas, o setor privado paga a conta. Quem sofre mais são os mais pobres, porque têm menos defesa”, explica o economista.
“Imposto inflacionário” atinge a todos
Para o economista Carlos Eduardo Freitas, do Conselho de Economia do Distrito Federal (Corecon-DF), a inflação funciona como um tributo, o “imposto inflacionário”. “O governo emite mais moeda do que pode para pagar juros da dívida interna. Com isso, a inflação funciona como um imposto, já que quem tem que poupar, porque o governo está gastando demais, somos nós. E é um imposto que atinge todos”, explica.

Para o economista, a solução do problema envolveria a participação de todos. “Além de o governo gastar menos, as empresas precisam diminuir as margens de lucro, e o empregado, aceitar ganhar menos. Só com poupança, mais gente trabalhando e mais investimento, a roda da economia volta a girar”, afirma.




COMPARTILHAR

Deixe uma resposta

*Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Leia também

Receba gratuitamente nosso informativo de artigos e notícias em seu e-mail