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PUBLICADO 2 anos ATRÁS.

Busca por microcrédito avança na contramão da crise

A economia brasileira iniciou o ano de 2016 com indicadores nada favoráveis. A cotação do dólar estava perto de R$ 4, a taxa de desemprego encostando em 10% e os índices de confiança eram os mais baixos da história.

Neste ambiente difícil, Bernadete Feltrin, 63 anos, costureira há 16 anos na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, resolveu realizar um sonho antigo.

Contrariando as expectativas negativas, decidiu investir. Para montar um armarinho e ampliar o negócio de costura – até então restrito a ajustes de roupas – tomou um empréstimo de R$ 14 mil no banco Santander em fevereiro deste ano.

“Aqui não tem crise porque a demanda por serviços é constante”, afirma Bernadete, proprietária da SOS Costura. Com o financiamento, que será quitado ao longo de dois anos, a costureira reformou a loja e comprou mercadorias, principalmente aviamentos e novelos de lã e linhas.

Ela não revela quanto fatura no novo negócio e se limita a dizer que os resultados têm sido promissores. “Vendo bastante aviamentos para as costureiras do bairro. Além disso, os materiais de crochê também estão em alta”, diz.

Segundo dados da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, existem pelo menos 100 mil moradores na comunidade, que são atendidos por aproximadamente 8 mil estabelecimentos comerciais, entre lojas de roupas, farmácias e supermercados.

A poucos metros da SOS Costura, Herlene Campos Duarte, 47 anos, proprietária da Fortaleza Ferramentas, relata, com o mesmo entusiasmo, sobre a decisão de expandir sua loja de materiais de construção, que existe na comunidade há cerca de 20 anos.

Lena, como é conhecida na região, acabou de obter um empréstimo de R$ 15 mil no mesmo banco para reformar o ponto comercial e ampliar a oferta de mercadorias do estabelecimento, que vende de prego a cimento e areia.

“É difícil existir crise por aqui, principalmente para quem trabalha direitinho. As construções e reformas nunca param de ser executadas na comunidade”, afirma.

A Fortaleza Ferramentas funciona das 8h às 21h, de segunda a sábado, e das 8h às 14h aos domingos e feriados. Lena conta que trabalha direto, dia e noite, e só folga no Natal e no dia 1º de janeiro.

“Quando falo que trabalho direitinho me refiro ao comerciante que inaugura uma loja e sai para passear e viajar. Não é assim que o comércio funciona. O lojista tem de abrir o estabelecimento para trabalhar. Caso contrário, o negócio não vai para frente.”

A filosofia de Lena tem gerado resultados. Quem passa pela porta não consegue imaginar que a loja localizada na rua Pasquale Gallupi, em Paraisópolis, chega a faturar até R$ 100 mil por mês, segundo informações da empresária.

Bernadete e Lena sãomicroempreendedoras que estão alimentando o mercado de microcrédito no país, que continua aquecido independentemente da recessão que o país atravessa.

Com uma carteira de microcrédito da ordem de R$ 300 milhões, e crescimento médio de 8% a 10% ao ano, o banco Santander informou que não captou efeitos da crise vindos do comportamento dos clientes deste segmento.

“O microcrédito gera oportunidades quando a economia está ‘bombando’ ou quando está em dificuldades”, afirma Jerônimo Rafael Ramos, superintendente comercial de Microcrédito do banco Santander.

Segundo ele, nos últimos meses os clientes estão mais conservadores, mas não desapareceram. Ou seja, o empreendedor que tomou um empréstimo de R$ 5 mil quando a economia estava bem, apenas renovou o microcrédito por um valor menor, de R$ 3 mil ou R$ 2 mil neste ano de recessão.

Ramos conta que, por outro lado, há clientes novos entrando neste mercado.

“Nossa sensibilidade indica que algo em torno de 20% a 30% desses 11 milhões ou 12 milhões de desempregados vão empreender como uma forma definitiva de estabelecer uma geração de renda”, afirma.

Em 2015, o banco tinha 134,7 mil clientes empreendedores ativos no segmento de microcrédito.

No primeiro semestre deste ano, esse contingente passou a ser de 142,3 mil. 

A expectativa do banco é que o número de clientes novos se aproxime de 23 mil pessoas em 2016. No ano passado, o número foi de cerca de 16 mil microempreendedores.

O valor médio dos empréstimos da linha de microcrédito do banco foi de R$ 2.133 no ano passado e, neste ano, passou a ser de R$ 2.121.

“O tíquete médio caiu um pouco, mas sabemos que boa parte dos nossos novos clientes perdeu o emprego e resolveu montar um negócio”, diz Ramos. 

De acordo com a Resolução 4.000 do Banco Central (BC), os bancos podem emprestar até R$ 15 mil na modalidade de microcrédito, e cobrar taxas de juros que podem variar de 2% a 4% ao mês.

Se o valor solicitado for superior a este limite, as taxas de juros médias cobradas são maiores e oscilam de 3% a 3,5%. De acordo com o banco, o microempreendedor pode solicitar um empréstimo de até R$ 60 mil se aceitar essa condição. 

PERFIL DO EMPREENDEDOR

O superintendente do Santander conta que a crise não afetou o perfil do empreendedor que busca o microcrédito. O segmento preferido é o comércio de produtos e serviços de beleza, que envolve desde a venda de cosméticos até a abertura de pequenos salões de cabeleireiros.

A fabricação de bolos, doces e salgados é outro segmento que tem proliferado. Esses dois setores estão mais relacionados ao público feminino, que hoje responde por 70% dos clientes que utilizam a linha de microcrédito do banco.

A taxa de inadimplência, de acordo com Ramos, também não mudou e continua na ordem de 3% (para atrasos acima de 90 dias) sobre o total de financiamentos.

O percentual corresponde à quase a metade do que foi registrado no crédito pessoal, ao redor de 6%.

“Este é um paradigma. No microcrédito, se pressupõe a relação de confiança. Estamos estimulando a tomada de crédito em grupos solidários, formados por três ou quatro pessoas”, diz Ramos.

Se um dos membros não tiver condições de pagar a sua cota-parte do financiamento na data do vencimento, outros membros se solidarizam e pagam. “Essa é uma garantia espetacular de recebimento”, diz Ramos.

O Santander disponibiliza essa linha de crédito a 29 núcleos de microcrédito de cerca de  600 municípios brasileiros.

A região Nordeste representa 80% da carteira de empréstimo (R$ 300 milhões). Os outros 20% do total de financiamentos concedidos estão praticamente distribuídos entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Ramos conta que este é um mercado que continua com um forte potencial de crescimento. Isso porque ainda existem 52 milhões de indivíduos adultos no Brasil sem conta bancária. Deste total, 30 milhões são empreendedores.

A  clientela de microcrédito do banco já soma 142,3 mil. “Até chegar na casa dos milhões há muito para crescer e é isso que nos anima. O microcrédito é um bom negócio e gera valor para os indivíduos.”




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